Inteligência Artificial nas Scale-Ups Brasileiras
Performance e Julgamento dos Empreendedores com IA
Acesse o estudo em PDFA cabeça do founder
virou o ativo
mais estratégico
da empresa.
No primeiro capítulo desta série, olhamos para como as scale-ups brasileiras estão experimentando e transformando seus negócios com Inteligência Artificial. Neste segundo capítulo, a lente sai da empresa e se volta para quem a lidera.
A IA já faz parte integral da rotina dos founders. Pesquisar, codar, preparar reuniões e analisar dados passaram a ser tarefas executadas, em boa parte, por agentes. Seria natural esperar que isso liberasse a agenda e o founder passasse a trabalhar menos. Mas não é o que acontece. O tempo liberado é reinvestido em reuniões mais profundas, análises mais amplas e novas iniciativas. E, com ele, volta uma pergunta que muitos founders estão se fazendo:
Como a IA transforma o meu papel como founder de startup ou scale-up? O que faço, o que deixo de fazer e onde coloco meu tempo e energia?
Neste estudo, identificamos que o ganho de produtividade não se converte em tempo livre. Ele volta para a agenda na forma de mais julgamento, atenção e priorização. Quando a execução fica barata, o que diferencia uma empresa é a qualidade das escolhas de quem a lidera. Por isso, a cabeça do founder virou o ativo mais estratégico da empresa, e cuidar dela passou a fazer parte do trabalho.
Ao longo deste capítulo, vamos abordar:
- O trabalho do founder mudou de lugar (o que faço): como a IA reorganiza a rotina de quem lidera, com casos de empreendedores que já redesenharam o próprio dia a dia;
- Onde e como alocar o trabalho com IA (o que deixo de fazer): onde o julgamento humano continua insubstituível, com uma Matriz de uso e risco da IA por atividade para orientar o que delegar e o que manter perto;
- A maior pressão vem do próprio founder (o custo): pressão e carga cognitiva no novo ritmo;
- Nem tudo precisa mudar ao mesmo tempo (onde coloco tempo e energia): as escolhas que founders estão fazendo para proteger espaço para pensar, e uma Checklist para o Founder;
- Uma carta da Endeavor aos founders sobre a espuma da IA e o cuidado com quem decide.
Para chegar a essas conclusões, coletamos um survey com 133 empreendedores de 125 empresas do ecossistema, conversamos com 20 empreendedores e lideranças da Rede Endeavor e analisamos as 852 mentorias conduzidas na Endeavor nos últimos 12 meses, das quais 191 tiveram IA como tema central.
O que
estamos
vendo
O trabalho do founder
mudou de lugar
IA e trabalho estão se tornando indissociáveis. Entre os 133 founders ouvidos, mais da metade usa a tecnologia por pelo menos duas horas por dia, e uma parcela relevante já passa seis horas ou mais. Esse uso aparece tanto em tarefas de execução, como prototipar, programar e analisar documentos, quanto em atividades de ideação (54%) e decisões de estratégia (32%).
Principais tarefas
que empreendedores
utilizam IA no dia a dia
- Criar
- Analisar
- Decidir e aprender
- 47%Analisar
documentos - 48%Prototipar
produto - 54%Explorar
ideiais - 23%Análise de
mercado - 37%Preparar
reuniões - 23%Escrever
textos - 26%Aprender
temas - 32%Decidir
estratégias
O efeito mais visível não é o trabalho desaparecer, e sim mudar de lugar. Na ZIG, empresa brasileira de tecnologia de pagamentos e gestão para bares, eventos e festivais, David Pires descreve uma mudança no fluxo de desenvolvimento. Antes, o refinamento entre produto e engenharia podia acontecer em uma reunião de cerca de meia hora. Com a IA assumindo uma parcela maior da execução, a reunião passou a durar horas, pois o foco do fórum passa a ser definir, especificar e validar decisões mais complexas do produto.
Antigamente, a reunião de passagem do PM para o DEV era apenas sobre a tarefa. Agora dura duas, três horas do DEV explicando tudo o que ele tem que fazer.
Uma boa prática que apareceu nas entrevistas é construir um “segundo cérebro”: projetos e agentes que recuperam o histórico da empresa para preparar análises e reuniões. Na Cora, fintech brasileira de serviços financeiros para pequenas e médias empresas, Igor Senra recebe um resumo dos encontros e assuntos do dia com cada pessoa do time. O resultado não foram reuniões mais curtas, e sim mais profundas.
É como se eu passasse a ser um líder que nunca se esquece de nada. Como está tudo documentado, com histórico das conversas. Minhas reuniões agora são muito mais profundas, mas elas ocupam quase o mesmo tempo de antes.
Entre os empreendedores ouvidos, outro uso recorrente é consolidar com IA o que acontece em cada área antes das conversas com o time. Assim, o founder depende menos de relatos individuais e chega às reuniões com uma visão menos enviesada da operação.
Diante de uma tecnologia nova, parte do papel do founder passa a ser conhecê-la de perto. Não para assumir a execução no lugar do time, mas para entender em primeira mão o que muda no negócio, calibrar o que é possível e mostrar o caminho pelo exemplo, puxando a companhia junto.
Tiago Dalvi, da Olist, conta que passou a testar pessoalmente ferramentas de vibe coding e novos produtos de IA para desafiar a própria companhia. A disposição de experimentar e mudar de rota, porém, não é nova na trajetória dele. A Olist não é sua primeira empresa: antes dela, Tiago já tinha transformado uma loja em shopping em distribuidora e depois em marketplace. Já na Olist, o negócio nasceu como uma loja nos marketplaces, cresceu com aquisições e, no último ano, desligou o produto que deu origem à empresa para colocar o ERP no centro da operação.
Ao longo dos últimos 20 anos, eu fui resiliente o bastante para tomar decisões duras de pivotar radicalmente o meu modelo de negócios e flexível o bastante para deixar para trás o que não nos levaria para o futuro. Fazer terapia, praticar esporte, encontrar meu equilíbrio foi fundamental para amadurecer e aproveitar esta jornada de um jeito positivo
Na Pipo Saúde, healthtech brasileira de gestão de benefícios de saúde corporativos, Manoela Mitchell fez algo semelhante: ampliou o próprio span de controle, isto é, o número de pessoas que respondem diretamente a ela, para 11 antes de pedir que outros líderes testassem o mesmo modelo. “Resolvi liderar pelo exemplo.”
Se a execução ficou mais rápida, o tempo se concentra nos momentos de escolha. Luis Novo descreve os chamados “hotspots decisórios”: momentos específicos em que o julgamento humano continua concentrado, enquanto grande parte do caminho entre eles pode ser executada pela tecnologia.
São duas grandes decisões: o que eu vou fazer e se isso está pronto para ir para a produção ou não. Todo o resto no meio é terceirizável.
Na Nuvemshop, Alejandro Vázquez olha para o trabalho do líder em três frentes (produzir, decidir e convencer) e vê a IA pesando de forma diferente em cada uma:
No contexto de IA, sem dúvida ela ajuda nas três, mas com muito mais força em “Produzir”, em menor grau em “Decidir” e, por último, em “Convencer”. Por isso, na minha visão, o mais importante hoje são as decisões e o poder de comunicação e convencimento que temos.
Onde e como alocar
o trabalho com IA?
A IA não substitui o papel do founder; ela o torna mais necessário. 59% dos empreendedores consultam a IA com frequência antes de tomar uma decisão; outros 26%, em temas específicos.
Consultar, porém, não é o mesmo que delegar. Na hora de tomar decisões, 46% dos empreendedores confiam mais no time, 35% ocupam uma posição neutra e 20% confiam mais na IA. Numa escala em que 1 é confiar só no time e 5 só na IA, a média fica em 2,59, ligeiramente abaixo do ponto neutro, e apenas 4% confiam totalmente na tecnologia. Quanto mais frequente a consulta, maior tende a ser a confiança: entre quem recorre à IA só de vez em quando, a média é 1,67; entre quem a consulta quase sempre, sobe para 2,87.
É justamente quando a confiança cresce que o olhar humano mais importa. Na Estoca, empresa brasileira de logística e fulfillment para e-commerce, a IA entrou em uma etapa que parecia ideal para automação: a triagem de currículos, com alto volume e critérios aparentemente claros. Rodrigo Cava relata que a empresa revisou esse uso após identificar que estavam rejeitando candidatos qualificados, e conta sobre a necessidade de manter o olhar humano em processos como o de contratação:
A gente desenvolveu algumas IAs que faziam revisão de currículos, e a gente tardou a entender que tinha erro nesse processo, que não estava necessariamente trazendo os melhores currículos, e a gente voltou atrás. Há algumas decisões nas quais a capacidade de avaliar a resposta e assumir as consequências importa tanto quanto a eficiência do processo.
Pedro Bobrow, na Comp, aponta que em processos de remuneração o desafio é semelhante. Diferentes recrutadores podem chegar a ofertas distintas para uma mesma pessoa; a solução foi concentrar o critério em uma referência humana, o “juiz”. Mas isso só é possível se existir uma estrutura por trás: um modelo em operação que reúna dados estruturados e não estruturados de diversas fontes. É essa base que permite que a pessoa com o melhor julgamento da empresa seja a interface principal do modelo, apoiada por ele de forma radical nas decisões sobre cada proposta. A mudança, portanto, não foi reorganizar o processo em torno de alguém, e sim transformar a forma como as propostas são construídas.
Nas entrevistas, também apareceu um alerta sobre os limites do próprio founder: usar IA para decidir em temas que ele não domina o suficiente para avaliar a resposta. Sem repertório para julgar o que a ferramenta entrega, o ganho de agilidade pode levar a erros.
Para decidir o que delegar, os founders ouvidos fazem um balanço constante entre contexto, capacidade de avaliação do resultado gerado pela IA e responsabilidade sobre o julgamento final. Na Birdie, empresa da diáspora brasileira que usa IA para analisar feedbacks de clientes, Alexandre Hadade transformou esse balanço em regra:
A regra é simples: quanto maior o impacto e mais difícil voltar atrás, menos delego para a IA. Quanto menor o impacto e mais fácil reverter, mais delego. Operação, cada vez mais nas mãos da IA. Julgamento, comigo. Enquanto ela ainda alucinar e não conseguir reproduzir meu raciocínio com consistência, decisões críticas não se terceirizam.
Com base nas entrevistas, construímos uma Matriz de uso e risco da IA por atividade e uma Checklist para o Founder. Em geral, quanto mais repetitiva, verificável e reversível a atividade, maior o espaço para utilizar IA. À medida que aumentam a ambiguidade, a consequência do erro e o envolvimento de relações humanas, maior é o papel do founder.
Espectro de delegação
Matriz de uso e risco de IA por atividade
Quanto mais abaixo, maior o risco de delegar e mais o resultado depende de julgamento, relação e responsabilidade humana.
Risco baixo
Mais delegável, menor impacto estratégico
Resumo e Registro de Reuniões
- IA apoia
- Transcrever; resumir; recuperar decisões; listar pendências e próximos passos
- Humano responsável por
- Conferir decisões relevantes, compromissos, responsáveis e nuances que podem ter sido perdidas
Preparação de Reuniões e Agenda
- IA apoia
- Recuperar histórico; levantar assuntos pendentes; organizar dados; sugerir pauta e perguntas
- Humano responsável por
- Definir o que realmente vale discutir, ler as pessoas e adaptar a conversa
Apresentações e Materiais
- IA apoia
- Estruturar slides; organizar conteúdo; revisar; formatar; produzir versões
- Humano responsável por
- Conferir números, fatos e coerência; preservar narrativa, intenção e tom quando o material define uma direção
Brainstorming e Exploração de Ideias
- IA apoia
- Gerar alternativas; contrapontos; referências; possibilidades
- Humano responsável por
- Aplicar taste, criatividade, intenção e critérios para escolher o que vale perseguir
Risco médio
Requer mais contexto, análise e alinhamento
Análise de Dados, Diagnóstico
- IA apoia
- Encontrar padrões; investigar causas; interpretar metas; gerar hipóteses
- Humano responsável por
- Rechecar dados com alguém que conhece a operação; separar análise plausível de leitura realmente válida
Prototipagem, Aplicações e Código
- IA apoia
- Escrever código; desenvolver protótipos; criar aplicações; automatizar processos
- Humano responsável por
- Humano especifica objetivo, testa, cria guardrails e faz revisão final onde o erro importa
Feedback de Clientes
- IA apoia
- Agrupar comentários; identificar padrões; resumir grande volume de feedback
- Humano responsável por
- Ler feedbacks relevantes individualmente e interpretar linguagem, silêncio, frustração e contexto
Risco alto
Maior impacto, envolve pessoas, reputação e futuro
Contratação e Avaliação de Pessoas
- IA apoia
- Organizar CVs; cruzar histórico; preparar perguntas; reunir evidências de performance
- Humano responsável por
- Avaliar postura, motivação, potencial, inteligência emocional, fit e assumir a decisão
Feedback, Cultura e Gestão de Pessoas
- IA apoia
- Recuperar fatos; organizar histórico; preparar roteiro e exemplos
- Humano responsável por
- Dar feedback diretamente; observar reação; ajustar tom; construir confiança; decidir valores e cultura
Estratégia / Direção da Companhia
- IA apoia
- Criar cenários; benchmark; contraditório; análise; diagnóstico; testar premissas
- Humano responsável por
- Definir onde jogar, por quê, prioridades e trade-offs; formular visão e direção
Espectro de delegação
Risco baixo
Delegue a execução e confira o resultado. Pesquisas, processamento de informações e tarefas estruturas permitem maior autonomia da IA.
Risco médio
Use como copiloto e mantenha o julgamento próximo. Em produto, tarefas que envolvem criação e avaliação de cenários, mais alternativas não significam necessariamente opções melhores.
Risco alto
Preserve a decisão humana – e considere um “AI no-go” (a opção por não utilizar IA devido a sensibilidade do assunto). Direção estratégica e relações com pessoas exigem contexto, nuances, responsabilidades e consequências de longo prazo.
Com a matriz, a pergunta deixa de ser o que a IA consegue fazer e passa a ser o que o founder não pode deixar de fazer. Na Blip, empresa brasileira de IA conversacional para atendimento e relacionamento com clientes em canais como o WhatsApp, Daniel Costa resume o que não muda, com ou sem tecnologia:
Com ou sem IA o papel do CEO é ser o guardião da visão (muitas vezes o criador ou co-criador) e o grande responsável pela orquestração da execução.
A maior pressão vem
do próprio founder
Se a IA desloca o trabalho para o julgamento, ela também aumenta o peso de julgar. E o tempo que ela libera não volta como folga. Fernando Steler, da Delend, percebeu isso na própria rotina: com a IA, ficou mais barato manter cada frente de trabalho aberta, e o resultado foi abrir mais frentes.
Ganhei tempo de produção. Não ganhei tempo para reflexão, seria desonesto afirmar isso. Como cada frente ficou mais barata de manter aberta, o número de frentes subiu. O tempo economizado foi reinvestido em volume. E o foco passa a ser a coisa mais importante do momento.
Mais frentes abertas significam mais coisas para acompanhar, revisar e decidir. E é aí que a pressão aparece:
- 78% dos empreendedores estão sentindo pressão máxima ou alta para acompanhar a IA.
- Para 90%, essa pressão vem deles mesmos, muito acima do board (29%), dos investidores (22%) e do time (20%).
E usar mais não alivia. Entre os founders que passam seis horas ou mais por dia usando IA, 71% declararam sentir pressão máxima para acompanhá-la, contra 29% entre os que usam até duas horas. Em alguns casos, usar mais IA apenas amplia a sensação de que há muito mais a aprender, aplicar e decidir.
Pressão e carga cognitiva andam juntas. A quantidade de informação interna e externa tem impacto direto sobre o que o founder precisa absorver. Internamente, enquanto a IA acelera a produtividade, alguém precisa revisar tudo aquilo que passou a ser produzido mais rapidamente.
Na Makasí, fintech brasileira de crédito para construtoras de habitação popular, Caio Bonatto sente isso a cada reunião.
A IA permite que as pessoas gerem plano de ação, HTML, 10 abas, dados, gráficos... Em cada reunião que eu entro, parece que a pessoa faz mágica em dois dias. Se a gente não tiver uma visão de prioridade, rapidamente ficaremos afogados e não terá espaço para avaliar e criticar tudo aquilo.
Externamente, os empreendedores são bombardeados com notícias e lançamentos sobre inteligência artificial de domingo a domingo. Só no arXiv, principal repositório de pesquisa da área, são publicados mais de 300 novos papers de IA por dia1.
O aumento da carga cognitiva vem da sensação de urgência e responsabilidade de absorver e julgar a nova gama de oportunidades que surgem dentro da empresa e, ao mesmo tempo, acompanhar as mudanças do mercado. Edvaldo Vieira, que acompanha esse movimento como mentor da Rede, descreve o paradoxo:
Paradoxalmente, a IA economiza muito tempo e, ao mesmo tempo, aumenta a quantidade de coisas sobre as quais podemos pensar. Se antes eu tinha três alternativas para uma decisão, hoje posso ter dez, quinze ou vinte. Posso construir cenários, sensibilidades, benchmarks e contrapontos quase indefinidamente. Portanto, o risco deixa de ser falta de informação e passa a ser excesso de possibilidades.
Nem tudo precisa
mudar ao mesmo tempo
Pressão e carga cognitiva não ficam só no campo do bem-estar. Elas afetam diretamente a qualidade das decisões. Julgamento é justamente a capacidade que mais sofre com cansaço, ansiedade e excesso de estímulo. Sob sobrecarga, o founder decide pior: a tendência é aceitar a primeira resposta plausível, revisar menos e confundir urgência com importância.
E, se 90% dos founders se cobram mais do que qualquer board, essa pressão não tem um botão de desligar do lado de fora. O freio precisa vir de dentro e ser desenhado com a mesma intenção com que se desenha um processo.
Os dados das mentorias da Rede mostram o descompasso. Nos últimos 12 meses, 22% das 852 mentorias realizadas tiveram IA como tema central, contra 13% no ano anterior. No terceiro trimestre de 2026, foram 31%. Entre as empresas que cadastraram novas prioridades no período, 47% incluíram IA, o dobro do ano anterior (24%). Já o desenvolvimento e o bem-estar do próprio founder seguem numa faixa estreita, em torno de 2% das mentorias, e nenhuma prioridade ativa das empresas menciona saúde mental, estresse ou burnout. A pressão aparece no survey. Ainda não aparece na pauta.2
Quando o tema aparece, ele vem disfarçado de pergunta de gestão. Algumas das questões levadas às mentorias em 2026:
- “Como lidar com a sobrecarga de informação gerada por IA e padronizar outputs para decisões mais objetivas?”
- “Qual deve ser o papel do founder técnico quando sua produtividade com IA supera a de uma squad? Como evitar virar gargalo?”
- “Como gerir a ansiedade e o medo dos colaboradores frente à IA?”
Sentir que tudo está mudando não significa que tudo deva mudar ao mesmo tempo. Recuperar o foco e priorizar o que faz sentido para o negócio se torna cada vez mais necessário, e os founders ouvidos têm feito escolhas próprias para isso.
Guilherme Weigert, da Conexa, escolheu um filtro: focar em acompanhar o que as principais empresas de IA estão construindo e planejando, em vez de tentar absorver tudo.
O que eu tenho feito, para conseguir acompanhar mais a velocidade é acompanhar de perto o planejamento de product launch da OpenAI, Anthropic, etc. Isso ajuda muito a gente a se antecipar.
Fabiane Pellegrino, também da Makasí, conta que passou a gastar mais tempo decidindo quais temas realmente merecem aprofundamento, especialmente quando há mais informação disponível do que capacidade de acompanhá-la. A solução está no desenho da própria agenda.
A minha agenda é aquela agenda curta, 25 minutos, 50 minutos, para que eu tenha 5, 10 minutos de intervalo. É aquele momento em que você se estica e também elabora. Isso eu percebo que me ajuda muito.
Num mundo em que a execução ficou barata, o recurso escasso do founder voltou a ser o pensamento com tempo de qualidade. Everton Cherman, CTO da Birdie, utiliza blocos de horário para pensar de forma estratégica, principalmente em feriados e fins de semana, momento em que está longe da operação. A distância também ajuda a calibrar a urgência.
Na IA, existem normalmente dois extremos: o ceticismo e a euforia. Ambos estão errados. Ela vai transformar profundamente os negócios e nossas vidas, mas ao longo de 10 ou 15 anos. IA não substitui julgamento estratégico e não conserta processo e cultura ruim, e esse tipo de mudança toma tempo.
Calibrar a urgência também passa por saber abandonar o que não funciona. A capacidade de “let it go” é uma das vantagens competitivas que se torna mais forte quando há um time C-Level com competências e visões complementares, que consegue enxergar a mudança por ângulos diferentes conforme o negócio evolui.
É melhor um empreendedor inteligente o suficiente para abandonar duas ou três ideias em dois anos do que alguém excessivamente apaixonado por uma tese.
Cuidar de si também é uma escolha de onde colocar energia. Tiago Dalvi, da Olist, coloca terapia, esporte e equilíbrio como parte do que permitiu tomar decisões duras ao longo de 20 anos, e não como algo que veio depois delas.
O ritmo do founder também vira referência para o time. Assim como Manoela Mitchell liderou pelo exemplo ao ampliar o próprio span de controle, o founder que trata cada lançamento como urgência ensina o time a fazer o mesmo, e o que trata a IA com método dá permissão para que todos façam igual.
Nas entrevistas, as práticas que funcionam têm algo em comum: são pequenas, fixas e não dependem de força de vontade no momento de pressão. A agenda com intervalos de Fabiane Pellegrino, os blocos de pensamento de Everton Cherman longe da operação, o filtro de Guilherme Weigert para acompanhar só os lançamentos que importam e a regra de reversibilidade de Alexandre Hadade transformam disciplina em estrutura. A Checklist a seguir reúne essas práticas.
Checklist do founder
Para usar antes de delegar uma decisão, ao planejar a semana e quando sentir que a pressão subiu.
Carta aos founders
Querida founder, querido founder,
Nos últimos meses, ouvimos 133 de vocês, conversamos com 20 lideranças da Rede e olhamos para mais de 800 mentorias. A gente esperava encontrar founders com mais tempo livre por causa da IA. Encontrou founders mais rápidos, mais produtivos e, de certo jeito, mais pressionados.
78% sentem pressão alta ou máxima para acompanhar a tecnologia. Para 90%, essa pressão não vem do board, dos investidores nem do time. Vem de dentro. E quem mais usa é quem mais sente. Enquanto isso, a IA já aparece em 31% das mentorias. A cabeça de quem decide quase não aparece.
A boa notícia: a cabeça de vocês nunca foi tão importante. A IA produz cada vez mais. O que ela não faz é escolher o que importa, dar o feedback difícil olhando no olho, sustentar uma visão quando o mercado aponta para o outro lado. Isso continua sendo de vocês.
A má notícia: esse ativo está sendo gasto com espuma. O lançamento da semana tratado como mudança de rota. A urgência que ninguém pediu. Dez frentes abertas porque abrir ficou barato. Volume confundido com avanço. Espuma faz barulho e evapora. Julgamento fica.
Como quase tudo, o problema é a dose. Acompanhar a tecnologia é obrigação. Tentar acompanhar tudo é o caminho mais curto para decidir mal. A pergunta não é quanto tempo você tem. É se o seu tempo está trabalhando para você.
E aqui está a saída: o julgamento que está sendo consumido é o mesmo que resolve. Usado a seu favor, ele decide o que entra e o que fica de fora. Você no controle, não refém de tudo que chega para processar.
Três coisas que eu faria no lugar de vocês.
Inverta a lógica. Ninguém lê 300 papers por dia. Menos volume, escolhas melhores. Monte seu second brain e use informação para julgar melhor, não para julgar mais.
Trate seu tempo de pensar como trata seu caixa. Planeje, proteja, não gaste no automático. Isso inclui o tempo de não pensar em trabalho.
Saia da sua própria cabeça. Nem o melhor second brain substitui uma boa conversa. Sozinho, o pensamento gira em círculo. Seu C-level, seus pares, seus mentores enxergam o que você ainda não vê. "Não sei" também é frase de CEO.
A Endeavor sempre foi o lugar onde dá para baixar a guarda sem baixar a ambição. Continua sendo. E a ambição é a mesma de sempre: construir empresas que competem com qualquer uma no mundo e transformam o Brasil.
Com admiração,
Maria Teresa
Managing Director,
Endeavor Brasil
Concorda? Assine a carta e compartilhe a sua regra de IA.
AssineAgradecimentos
Este projeto não teria sido possível sem a colaboração, o tempo e os insights de empreendedores, mentores, embaixadores e investidores da Rede Endeavor.
Empreendedores
Endeavor
- Alessio Alionço, Pipefy
- Alejandro Vázquez, Nuvemshop
- Alexandre Frankel, Housi
- Alexandre Hadade, Birdie
- Caio Bonatto, Makasí
- Daniel Costa, Blip
- David Pires, ZIG
- Diego Barreto, iFood
- Fabiane Pellegrino, Makasí
- Fernando Steler, Delend
- Franco Lamping, 180 Seguros
- Igor Senra, Cora
- Leonardo Simão, Calma da Mente
- Luis Felipe Carvalho, NG Cash
- Manoela Mitchell, Pipo Saúde
- Marcos Boschetti, Neologica
- Paulo Alencastro, Unico
- Raphael Avelar, Creators Ads
- Rodrigo Cava, Estoca
- Santiago Sosa, Nuvemshop
- Tiago Dalvi, Olist
- Pedro Bobrow, Comp
- Guilherme Weigert, Conexa
Rede Endeavor
- Luciano SnelEmbaixador Endeavor
- Ricardo FernandesEmbaixador Endeavor
- Edvaldo VieiraMentor Endeavor
- Rodrigo GalindoEmbaixador Endeavor
- Fernando CirneEmbaixador Endeavor
- Luis NovoMentor Endeavor
- Alex SzapiroEmbaixador Endeavor
- Everton ChermanRede Endeavor
Investidores
- Across Capital
- General Atlantic
- Norte Ventures
- Prosus
- Qualcomm Ventures
- Valor Capital
Sobre a Endeavor
A Endeavor é a Rede global de, por e para empreendedores que escalam e multiplicam seu impacto. Com a crença de que empreendedores de alto impacto transformam economias, há 26 anos conectamos, inspiramos e potencializamos o crescimento dos empreendedores brasileiros por trás das maiores companhias da geração.
Por meio da nossa comunidade local e global, presente em mais de 50 países, apoiamos empreendedores a superar seus maiores desafios e compartilhamos conhecimento para todo o ecossistema crescer.
Este estudo foi
realizado com o apoio de:
A Salesforce é o CRM Agêntico Nº 1 no mundo. Nosso propósito é conectar empresas e clientes de forma inovadora com uma plataforma unificada de IA, dados e confiança.
Saiba mais em: www.salesforce.com/br
A Onfly é a maior travel tech B2B da América Latina, com mais de 3.500 clientes que utilizam a plataforma para uma completa gestão de viagens e despesas corporativas. A companhia ajuda empresas de todos os tamanhos a melhorar seus processos de viagens com uma plataforma tecnológica exclusiva que contribui para redução de custos e transparência dos gastos, desde a despesa do café do aeroporto até passagem aérea, hotel, carro e ônibus. Para os colaboradores, a plataforma permite que uma reserva de viagem e relatório de despesa possam ser realizados em apenas alguns minutos.
A empresa foi reconhecida pela LATAM como Preferred Agency Partner 2025.
Saiba mais em: www.onfly.com.br